Sentiu uma picada no braço e, ainda com os olhos fechados, coça.
Sente nova picada e volta a coçar.
Mais uma.
Abre os olhos e vê o que parece ser uma formiga desaparecer debaixo dos lençóis.
Ainda deitada, afasta a roupa da cama mas nada vê.
Levanta-se.
Puxa a roupa da cama toda para trás e
vê um mar de formigas dentro da cama onde tinha dormido toda a noite.
Um frio percorreu-lhe a espinha.
Despe-se e vê o seu corpo ao espelho...
está coberto de picadas vermelhas,
umas maiores que outras, umas mais feias que outras.
Fica atordoada sem saber o que fazer.
Não se reconhece naquele corpo
Sabe que aquele não é o seu corpo
Quer o seu corpo de volta!
Lisinho, macio e suave...
As picadas vão deixar marcas, sabe bem disso.
A maioria vai desaparecer, mas há algumas que nunca mais sairão...
Vão lá estar a lembrá-la sempre das consequências da sua imprudência
Sente-se triste.
Há erros que se pagam caros, pensa
Tem que se adaptar ao novo corpo
Aprender a cuidar dele,
a protegê-lo e a mimá-lo de forma diferente da que fazia até aqui,
Aprender a cuidar dele duma forma que nunca antes fizera.

A metamorfose de Narciso, Salvador Dali, 1937